Administrador do inútil - DESEJAR SER

Autores: Manoel de Barros

Administrador do inútil - DESEJAR SER
Nasci para administrar o à-toa o em vão o inútil. Pertenço de fazer imagens. Opero por semelhanças. Retiro semelhanças de pessoas com árvores de pessoas com rãs de pessoas com pedras etc etc. Retiro semelhanças de árvores comigo. Não tenho habilidade pra clarezas. Preciso de obter sabedoria vegetal. (Sabedoria vegetal é receber com naturalidade uma rã no talo.) E quando esteja apropriado para pedra, terei também sabedoria mineral. IX O poema é antes de tudo um inutensílio. Hora de iniciar algum convém se vestir de roupa de trapo. Há quem se jogue debaixo de carro nos primeiros instantes. Faz bem uma janela aberta. Uma veia aberta. Pra mim é uma coisa que serve de nada o poema Enquanto vida houver Ninguém é pai de um poema sem morrer

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