Perdas

Autores: Euna Britto de Oliveira

Perdas
Se o Senhor me mostrar, eu acho! Nem que esteja debaixo do colchão, Dentro da gaveta, Atrás da cômoda, No meio da roupa limpa, No guarda-roupa... Se o Senhor me mostrar, Eu acho o meu caderno grande, De capa preta, Que eu conservava a meu lado, Quando ia dormir... Caso acordasse com uma idéia, Era nele que eu escrevia, últimamente... Já escrevi em tantos cadernos!!!... Grandes, pequenos, De capas coloridas Ou não... Procurei-o, E procurei em vão... Relaxo... Um dia, ele há de aparecer! E se não aparecer?!... Entre sumir um ou outro, Antes ele do que o outro, Semelhante a ele, com o orçamento do mês, Anotadas todas as contas por minha conta!... Se este sumisse, Aí, sim! Na hora do pagamento, eu ficaria sem referência... Daí, a minha preferência. Mas perder escritos não é fácil! No meu caso, é ver poemas proscritos... Meu caderno grande, de capa dura, preta Não deve estar no meu quarto... Se estivesse, eu o teria encontrado! Onde estará o caderno escuro Que tanto procuro, No claro?... Claro! Está sumido. Deve estar dormindo... É noite alta. Estou acordada. Olho o bico do meu seio esquerdo Que salta da camisola... O cão ladra lá fora. É noite alta, e falta... Durmo de luz acesa. Não durmo. Escrevo... Nesse caderno novo, Nesse novo caderno, Cheio de linhas E espaços brancos... Um seio escondido e outro, não. Uma mão na caneta e outra, não. A meu lado, um homem recente Não houve Não há. O que já esteve a meu lado Não me ouve... Não ouve mais! Já ouviu... Em outro tempo! Já houve!... Ave!...

20/05/04 ----------------------------------------------------------------------------------------------------------- Ilustrção: Perfect-story – Escultura de Lorenzo Quinn Fonte: Internet

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