Uma Semente de Poesia...

Autores: Euna Britto de Oliveira

Uma Semente de Poesia...
O motorista bonito e a curva feia encontraram-se um dia. A pressa A prensa A imprensa A covardia O que ninguém queria. De primeiro eu notava cada cruz na estrada. Mesmo por causa da semente de certa poesia, que felizmente decorei na Escola Primária, um poema de Castro Alves... Agora, não. Agora, acostumei-me a elas. Os acidentes de carro fazem com que sejam freqüentes as cruzes nas estradas!... A quantos hojes ainda terei direito?... Minhas mãos com tantas linhas, pena que eu não saiba ler! E nos adivinhos não posso crer. Quando eu partir, minhas coisas ficam aí. Minhas roupas, minhas artes... Mas meu gênio bom eu levo, é semeadura de Deus. Adiante, vamos precisar dele. Não é, Deus?

BH - 1983 --------------------------------------------------------------------------------- Ilustração: ANTÔNIO DE CASTRO ALVES - Nascido na Bahia, em 14/03/1847. É considerado o Poeta da Abolição, da República, da Liberdade e do Amor. Faleceu aos 24 anos, em 06/07/1871. Minha sincera homenagem a esse Grande Poeta, que defendeu ideais que no futuro seriam os mesmos meus!... --------------------------------------------------------------------------------- A CRUZ NA ESTRADA Castro Alves Caminheiro que passas pela estrada, Seguindo pelo rumo do sertão, Quando vires a cruz abandonada, Deixa-a em paz dormir na solidão. Que vale o ramo do alecrim cheiroso Que lhe atiras nos braços ao passar? Vais espantar o bando buliçoso Das borboletas, que lá vão pousar. É de um escravo humilde sepultura, Foi-lhe a vida o velar de insônia atroz. Deixa-o dormir no leito de verdura, Que o Senhor dentre as selvas lhe compôs. Não precisa de ti. O gaturamo Geme, por ele, à tarde, no sertão. E a juriti, do taquaral no ramo, Povoa, soluçando, a solidão. Dentre os braços da cruz, a parasita, Num abraço de flores, se prendeu. Chora orvalhos a grama, que palpita; Lhe acende o vaga-lume o facho seu. Quando, à noite, o silêncio habita as matas, A sepultura fala a sós com Deus. Prende-se a voz na boca das cascatas, E as asas de ouro aos astros lá nos céus. Caminheiro! do escravo desgraçado O sono agora mesmo começou! Não lhe toques no leito de noivado, Há pouco a liberdade o desposou.

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