Vesúvio
Autores: Euna Britto de Oliveira
Viver uns tempos
à sombra do vulcão em estado de dormência...
Aproveitar a generosidade do vale fértil,
que as lavas candentes de outrora enriqueceram,
ao se resfriarem...
E soterraram um passado que não sumiu,
está apenas arquivado, preservado,
e um dia poderá ser resgatado...
Plantar sementes latentes
e ver brotar a flor azul do Himalaia...
Cultivar o trevo de quatro folhas,
os coraçõezinhos verdes que dão sorte,
as flores que enfeitam a vida e perfumam a morte...
Despertar-se em palavras
que têm a força de um norte!
Como o vulcão inspira!...
Como a gente respira melhor
ao conhecer um vulcão!
Por tudo isso,
e por muito mais do que isso,
sou grata ao vulcão.
De repente,
o vulcão entra em erupção!...
Entre estrondos estremecedores,
como em estertores de gigante
que acorda revoltado
por ter dormido muito,
lança fagulhas ardentes,
rolos de fumaça,
fogos de artifício,
vício de deuses malucos,
rios de fogo...
Porque o vulcão é fogo!...
E mostra as unhas,
as pedras quentes que contém,
seu poder de fogo,
o jogo das forças da natureza;
sua capacidade de correr atrás da caça,
que passa lépida
como uma lebre,
mas não adianta correr,
ele a cansa e alcança!
E dança com ela
a dança do ventre vazio,
que tem fome,
e por isso a come.
Sua nova visão ameaça a paz bucólica do vale,
desespera as aves,
afugenta apegos,
deixa perplexas as camponesas
que ontem mesmo,
em horas marcadas,
olhavam o vulcão como quem olha uma montanha sagrada,
que protege,
ampara
e pára qualquer raio que venha contra elas!...
O vulcão me assusta,
com essa força bruta,
com essa força súbita,
com essa cratera abrupta!