Dom

Autores: Euna Britto de Oliveira

Dom
De vez em quando, Sinto-me como fada que perdeu o poder, Esse meu novo poder de escrever!... Mas quando o exerço, Nem me lembro quem sou Ou quem não sou!... Ser fada às vezes enfada. Desço ao nível de gente, Que é sempre mais exigente, E então vou criar filhos Arrumar gavetas Lavar pratos Cozinhar Costurar Dar aula Emprestar coisas... Ou então tocar piano Em semitom e semidom... Aprendiz de fada... Dessas que ainda vacilam, Tropeçam. E,inseguras, Seguram-se na certidão-certeza De não-servidão. E quando se aprumam e se exprimem, Têm a estrangeira expressão De uma simples passageira Que é deste mundo e não é, E se faz entender, Porque língua de fada é antes empática E só depois telepática!... Primeiro, é lugar do outro, Pra depois ligar pra o outro!... Enquanto não vem a que reduz, Faz-se a comunicação como se fez a luz! Canais abertos Queluz Vaduz Corridas de avestruz... Tudo num passe de mágica, Hemorrágica sangria nos deuses, Que precisam doar sangue, Porque já começaram, E não podem parar! Nós é que ficamos anêmicas Por não os procurar!... Ah! Visão de gente abafada, Princípio de fada inacabada... Ontem, um morcego rodou muito minha janela!... Será mau agouro?...

---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- Belo Horizonte, 1980.

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