Seta

Autores: Euna Britto de Oliveira

Insinuante, a seta indica a entrada, a saída, a direção... Enceto a travessia do dia... Estou misturada com as horas. Domingo é um dia tão comprido!... Mal-acostumada, deito-me numa rede armada entre o pau-brasil e a coluna da casa. Meu corpo se repousa como um elástico em repouso... Mas meu coração tem a tensão das cordas muito esticadas! De uma musiquinha de criança: “Jardineiro do meu pai, não me cortes os cabelos!... Minha madrasta me enterrou debaixo de uma figueira...” Ai, que música mais macabra!... Desligo-me do som do carro, com música ao gosto da menina... As musiquinhas continuam... Dá ventania na memória, e aparece Zenon, que deixa de ser pedreiro por um instante e, contemplativo, observa: — “É bonita a chuva! Os cordões de chuva assim andando na serra !!!...” Da varanda do fundo da casa de campo, em Betim, onde estamos, podemos apreciar o espetáculo das águas de verão molhando a serra, o chão mais próximo, o espaço... onde um bando de periquitos ontem mesmo se exibira, em vôo rasante... A chuva, ao mesmo tempo que cai, anda de lado, ao sabor do vento, inclinada, enviesada, sonora e cheirosa!!!... Passageira, a chuva... Duradoura, a pedra sossegada na montanha. A água mole e a pedra dura! Haja resistência para tanta insistência!!!... E vice-versa!...

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