Aparte

Autores: Euna Britto de Oliveira

Aparte
Preciso de verde, versos e verdade. Preciso da esperança de, tendo nascido velha, Transformar-me numa criança. Ah, mar da China, Ah, menina, quem me pega o boto cor-de-rosa Para com ele ter uma prosa? Ele na água e eu no barranco, Ele de rosa e eu de branco... Quem me leva, em barco seguro, Para ver a dança das baleias? Não me iludo com sereias... O tocador de flauta poderia melhorar o mundo agora, Neste exato momento, Tocando uma suave música que me fizesse dormir, Aquela mesma música que eu escutava quando ninguém tocava... A cozinha grande, o fogão de lenha, E a casa era a da minha avó. Juro que eu escutava uma música, à noite, às vezes, antes de dormir. Seriam sons reorganizados de algum carro de boi?... Ou era Beethoven mesmo, para justificar seu retrato na parede?... Era uma música quase clássica, longe e fina Para os meus ouvidos de menina... Uma mordomia era tia Nice me beliscar de leve o corpo todo, aí, eu dormia... Agora, eu mesma belisco o meu pensamento E de vez em quando sai poesia... Penso em tanta gente! Gente é uma coisa engraçada: Se não está perto, vira lembrança. Aliás, tudo longe é só lembrança... Até o sol vira lembrança, mas por pouco tempo. Até a noite vira lembrança, mas por pouco tempo. Minha mãe? Escapuliu, virou lembrança, alçou voo, Furou o mistério e nos deixou na grande e humana peregrinação, Contando os anos e a abstenção... Tem jeito não!...

-------------------------------------------------------------------------------------------------------------- BH, 26/06/1992 Ilustração: Foto do meu álbum de criança - Fazenda Louvadeus - Bahia

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