Prefácio do Livro "Trilhos"

Autores: Saul Martins

Prefácio do Livro "Trilhos"
No que se refere à forma, prefiro a poesia clássica. Mas leio com prazer e até me emociono quando o poema, ainda que moderno, possua bom conteúdo. É o caso da poesia de Euna Britto de Oliveira, misto de pensamentos elevados e lembranças amenas, por vezes tristes. A poetisa não foge à regra, pois ninguém é só feliz no mundo o tempo todo. Ela expressa muito bem o contraditório quando revela em verso: Há momentos que viver é mais difícil que morrer. Sim, concordo. Em outros passos de sua excelente obra, chamaram-nos a atenção as quatro estrofes a seguir: ...olhos que não viram a morte, Mas vão ver. Minha mãe? escapuliu, Virou lembrança, alçou vôo... Tem jeito não! Mais que genealógica, a árvore da vida é sem lógica. Há um rodízio de nascimentos e mortes, não sei se são com datas marcadas para começo e fim. Já viram a morte? Está viva! Tem jeito não, Euna! Foi assim e assim será: se alguém nasceu, morrerá. Premonição de Euna: — Morro de medo de ficar pra viúva! Em outro volume de sua obra extensa, confirma o temor: — Vou virar vovó, viúva não, anciã. Frasista de primeira ordem, o seu livro contém frases lapidares e belos versos. Adora, na poesia, formar seqüências de rimas, como os dois exemplos que escolhi, entre muitos: ...aspiro, inspiro, respiro... conforme a hora, suspiro... ...esporas, esperas, espúrias horas que expiram. Busca na palavra mais o som que o sentido. Além da poesia, que nos une, as coincidências: representei o primo Henrique no seu casamento civil com Euna, realizado aqui em Belo Horizonte no dia 10 de março de 1965. Ele estudava em Genebra, Suíça. Senti-me valorizado, naturalmente. E agora, na falta insubstituível do pai, de novo o represento no casamento religioso da filha Evelyne, conduzindo-a ao altar para o matrimônio dela com seu amado noivo Carlos Henrique. Das frases de efeito, escolhi doze belos exemplos para ilustrar este modesto prefácio: • Vitória é o encontro final com a esperança. • Quão baixas seriam as alturas se tivéssemos asas. • Somos todos muito iguais na desigualdade. • Há tantos sem nada de tudo, há tantos com tudo e sem nada. • Não é que eu goste de escrever, eu preciso. • O primeiro espelho do mundo foi a água. • A felicidade estica a vida da gente. • No Brasil, está proibido ser índio. • Se o fato de olhar para o céu baixasse a cor e colorisse o olhar, hoje eu teria olhos azuis. • Escrever é conversar sozinho. • A vida é uma constante aprendizagem • Nos sonhos, tudo se realiza. Não resisto a vontade de citar uma estrofe que recolhi ao acaso: Aos trancos e barrancos construímos nossa casa, não nossa paz, isso que nem sabemos como se faz. Agradou-me sobremaneira a Autora incluir em sua obra poética várias e variadas manifestações folclóricas, como as que se seguem: Bota de sete léguas, mau-olhado, quebranto, dia de São Nunca (1º de novembro, todos os santos), mãe-d’água, bruxa magrela, sereias, lobisomem, João e o pé de feijão. Êh tutuia, carne no prato, farinha na cuia. Já se vê que a poesia de Euna Britto de Oliveira é escorreita, elevada e bela. Seu livro é da melhor qualidade, valoriza a literatura, deve ser lido e comentado.

Saul Martins Doutor em Ciências Sociais e Escritor

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