Pequena Declaração de Bens

Autores: Euna Britto de Oliveira

Hoje, nada tenho a declarar sobre a Floresta Negra, A não ser que vi seu verde intenso de perto, Sua imensidão de pinheiros e a bruma que subia Como fumaça misteriosa De algum fogão fantasioso, Do fogo de alguma bruxa, Puxando a reboque meu pensamento mágico... Chovia!!!... Hoje, nada tenho a declarar a respeito do avião da Suíça Que nos trouxe de volta a nosso país, Eu e meu marido, A não ser que tomei assento junto a uma janela Próxima à asa esquerda E, às vezes, sentinela gratuita, montei guarda E vigiei a turbina do meu lado, Que funcionou bem o tempo inteiro!... Calculei leiga e grosseiramente O número de curtos-circuitos em potencial Nos fios ocultos da aeronave, Em sua sobre-humana trajetória... Recordei a lei das probabilidades, as possibilidades, A responsabilidade das companhias aéreas E dos pilotos... Muitos se aposentam de cabelos brancos!... E me mantive calma. Hoje, nada tenho a declarar a respeito de Pérgamo, A não ser a forte impressão Que me deixaram As brancas ruínas de mármore Do primeiro hospital do mundo, De estilo grandioso e monumental, Complexo, completo, E a inscrição que nele havia: “AQUI A MORTE NÃO ENTRA”. Também não entrava quem estivesse muito doente... Um velhinho bem doente e pobre Não conseguiu entrar para se tratar. Ficou triste e quis morrer... Pegou uma serpente, extraiu seu veneno e o bebeu!... Em vez de morrer, curou-se! Desde então, a cobra se tornou o símbolo da Medicina e da Farmácia. Eis aí o que me informaram lá em Pérgamo, na atual Turquia. Nada tenho a declarar sobre hoje, A não ser que é um dia de junho E estou morrendo de frio Debaixo de três cobertores... À beira do fogo de um fogão a lenha, eu esqueceria o frio, Aqueceria água para fazer chá de verbena, Fritaria o ovo caipira que escapou das mãos de Colombo, Resvalou no espaço, rolou através dos séculos... E me alcançou! Em pensamento, fico zanzando como um pêndulo, Entre um continente e outro, Entre um tempo e outro, Entre uma forma e outra de empregar o tempo!... Meu coração me imita, Minha condição me limita. Há o que posso mas não devo. Há o que devo mas não posso. Há o que posso e o que não posso. Posses, perdas e danos, Devoções, deveres, obrigações, Problemas e soluções, Direitos, Possibilidades, Saudades do impossível, Realidade... E o lago Titi-see (Titi-zê) esperando o inverno Para se congelar e deixar gente esquiar... Indiferente, diferente da gente, Belo e frio, Lago alemão em negra floresta... Perto dali, o calor humano e o carinho de Danièle e André Richard, Em Freiburg, Nossos amigos suíços na Alemanha...

--------------------------------------------------------------------------------------------------------------- Belo Horizonte - 2001

Comentários

Ainda não há comentários.