Silêncio de pedra

Autores: Euna Britto de Oliveira

Silêncio de pedra
É como uma amostra de osso de alguma perna, de uma tíbia. Um corte de uns 12cm X 20cm. Mas não é osso, é árvore. Amostra de um tronco de árvore petrificada. Amostra de fóssil, Desses fósseis que se vendem como souvenir... Poderia ser peixe, Porque vendem peixes petrificados também. Mas é árvore. Tanto melhor que seja árvore! Amo árvores!... Se não tivesse nascido gente, Seria candidata a nascer Primeiro, pássaro; Depois, árvore! Há tempos olho essa pedra e penso... Pra não pensar, Distanciei-a de mim. Não chega a ser bonita como objeto decorativo. Entretanto, faz pensar!... Faz-me pensar, como as janelas dos sobrados de Ouro Preto me fazem pensar! Aqueles sobrados, aquelas janelas... Quantos vultos desfilaram neles, Quantas vidas se esfregaram nelas!... Fóssil de uma árvore-menina... Serviria como peso de papel. Nem cerne, tinha direito. Um cernezinho de nada! Mas de onde veio? Onde nasceu e cresceu? O que lhe aconteceu, Para que se operasse essa transmutação de vegetal em mineral? Um geólogo deve ter a resposta, posto que estuda pedras. Mas não me interessa a resposta científica. Quero a resposta mágica, trágica, antropofágica!... Acaricio a pedra em seu corte transversal... Lisa, fria. Aliso-a em sua lateral – corrugada e áspera. Cerne marron manchetado de tons claros... Exterior bege. Viajo no tempo, até encontrá-la árvore. Encosto-me em seu tronco, dá pra encostar! Tento divisar e adivinhar suas folhas... Longas e pontiagudas Ou pequenas e arredondadas?... As folhas todas são verdes. As suas, também. Segredo de pedra. Silêncio de pedra. Frieza de pedra. Retiro-me. Devolvo a pedra a seu atual lugar Na atual estante, de mim distante... Permanecerá com uma pergunta semelhante à da Esfinge... Essa inocente pedra não devorará ninguém. Pedra, Pedrelina! Meu osso que não preciso roer! Comprada que foi por meu marido, Nem sei mesmo qual o sentido... Pétreo arremesso de interrogação contra o futuro! Quem decifrar a resposta, Vai ser um furo!

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