Diário de Vôo
Autores: Euna Britto de Oliveira
Cheguei há oito dias de Paris
e ainda não acabei de chegar!...
Sou assim, demorada pra "cair a ficha!..."
Deve se sentir poderoso,
com a memória refrescada
de que é feito à imagem e semelhança de Deus,
o piloto que faz roncar os motores do resolvido avião,
e o faz levantar-se, arremeter-se,
arrematar dificuldades,
ganhar os céus,
sobrevoar cidades,
atravessar oceanos...
E chegar a seu destino!
Lanches, atenções, recomendações e olhares de aeromoças,
palavras em línguas de múltipla escolha,
televisõezinhas com opções de filmes
ou de informações
sobre a localização do avião e sua rota,
em simulação sobre um mapa...
Lá embaixo,
ora colchão de nuvens,
ora nada que impeça a visibilidade
de montanhas, planícies, cidades, rios, paisagens...
E os homens, que não se vêem, mas se adivinham,
porque existem e estão lá!...
Cá em cima, a minha inveja dos carros
que avisto da janela do avião,
quando ele se prepara para descer
e mostra claramente, com solavancos,
descendo os degraus do ar,
que aterrissar, como decolar, não é fácil!
Haja perícia e habilidade por parte dos pilotos!!!...
Ô inveja dos carros que escoam pelas ruas e estradas,
diante de meus olhos,
cada vez mais próximos!...
Eles estão no chão, e eu, ainda não!
Felizmente, chegamos bem!
Desço do avião e vou cuidar da minha vida.
O comandante, o co-piloto,
as comissárias e comissários de bordo vão continuar,
dia após dia...
Envelhecerão voando, porque são um pouco pássaros.
De vez em quando, por necessidade,
tomo carona na vocação e na coragem deles.
Voar é um milagre!