Rural
Autores: Euna Britto de Oliveira
Resgato boiadas do fundo dos meus olhos!...
Gado leiteiro e de corte
Branco, negro, bege, malhado, molhado...
Saem do nada e atravessam o rio Mucuri a nado...
O rio largo que não secou e cercou entre suas margens um pedaço de tempo
Um pedaço de história
Um quadro que ninguém pintou
Umas cenas que até hoje boiam naquele exato lugar
À espera da mão de Deus para abençoar e aclamar e acalmar!...
É bonito demais ver uma boiada atravessar um rio a nado!...
A certa distância, era o que eu mais gostava de apreciar como a um rico mural
Quando me foi dado experimentar a vida rural.
Só agora percebo que nunca via boiada atravessar o rio para o lado de cá.
Era só para o lado de lá!
Era o gado vendido...
Do lado de cá, a maior parte do gado existente era nativo
Dali mesmo onde havia nascido, crescido...
Onde havia sido vacinado, tratado
Reproduzido, desleitado, engordado...
Para depois ser despedido!...
Para o lado de cá, nunca vinha boiada.
No máximo, algumas vezes, algumas reses...
Vacas, bois, garrotes, novilhas, bezerros...
Em cada um, via-se uma marca na traseira feita a ferro quente.
Era de praxe marcar assim, com ferro em brasa e dor
Para personalizar a posse do dono.
Dor que só o gado sentia!
Será que só o gado sentia, ou também sentia a dor quem o ferrava
E alguém que via?...
Gado ferrado, gado marcado!
Cada dono diferente, mais um ferro, uma marca a mais, uma dor mais quente!
Nunca víamos a morte da bezerra!...
Todos eles iam morrer lá longe... nos matadouros
Depois de atravessarem o rio...