Lavanda

Autores: Euna Britto de Oliveira

Lavanda
O corpo pedia Lavanda e recebia Alfazema... Perfumava-se a contragosto com o perfume contrário, o corpo agradecido, agraciado com o sentido do olfato... O meu corpo. As rugas? Recebo-as com carinho. São sinais de mais vida! Trato-as como se fossem detalhes em baixo-relevo sobre essa escultura, sobre essa estrutura de carne... Ranhuras em disco raro a meio-cuidado, a meu cuidado. Inevitávies, desafiadoras... Desconfiadas do amor, inseguras, afundam-se ainda mais na carne viva que visitam com prazer e onde resolvem morar, até que a carne deixe de ser! Ah!... E esses vasinhos arrebentados pouco acima do joelho, sobre uma das pernas, mais precisamente, sobre a perna esquerda?... Coisa de jogadora de vôley, o que não sou, por não ter sido admitida no time do Colégio – só jogava quem sabia. Eu queria aprender, mas não sabia. Fui descartada. Nunca mais inventei aprender a jogar vôley! Esporte por esporte, não me fez falta. Jogo com a água! Nado... Voltando aos vasinhos... Pequenina bacia hodrográfica de rio que deságua no coração e seus inocentes afluentes... É assim que os vejo. Passo o dedo neles e viajo... Não doem. Deixo-os ficar. Em tempo de praia, pernas à mostra, por causa dos outros, sempre me prometo que vou procurar um Angiologista para fazê-los desaparecer... Passada a praia, passa a decisão. Não levada, vou-me levando... Depois de lavada, Lavanda!... Levanto-me! Gosto desse cheiro! Lavanda...

BH, 28/4/06

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